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Isolamento, derrota e reorganização das esquerdas no Brasil*

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O problema com a extrema direita emergente no Brasil não é apenas seu programa econômico entreguista, subalterno, antipovo e antinacional. O problema mais profundo é que ela pretende uma nova história, uma nova sociologia, uma nova filosofia – uma nova codificação estruturante das narrativas e sentidos.

Isolamento, derrota e reorganização das esquerdas no Brasil

É boa conduta não subestimar ou menosprezar adversários. No geral é prudente tentar praticar dedicada reflexão buscando compreender as circunstâncias que nos levam ao embate, entender de forma realista as motivações e justificações que dão legitimidade ao opositor e até realizar o difícil exercício de encontrar no outro aspectos admiráveis e pontos fortes. Mais que um proceder honrado, o que já aumentaria nossa própria força moral diante da luta, o sentido maior é o ganho de compreensão sobre o padrão das forças contra as quais resistiremos.

É evidente que a derrota eleitoral de Haddad para Bolsonaro tem dimensão estratégica e cultural para todas as esquerdas. As resistências diante do processo de realinhamento do Brasil (e de toda América do Sul) à órbita de influência americana, no contexto de suas disputas com a China, que se intensificam  aqui a partir das tais “jornadas de junho de 2013”, sucessivamente malograram até o ponto culminante da ascensão da extrema direita ao poder institucional. Isto pode ser demonstrado pelos jargões que representaram as posições nas fases (sempre meramente reativas, defensivas per si) das esquerdas ao longo de todo o trecho:

“Não vai ter golpe” – e teve.
“Fora Temer” – e ficou lá.
“Lula Livre” – e seguiu preso.
“Ele não” – e Bolsonaro venceu.

São todas objetivas derrotas das hastags que representaram as resistências políticas e culturais das esquerdas e têm em comum fazerem parte encadeada de um mesmo processo geral de seu progressivo esvaziamento na luta institucional e de ideias. Com isto não se diz que essas resistências não tenham deixado seu legado e que não tenham sido importantes para a consolidação de um bloco de aglutinação capaz de oferecer contra-narrativa, é também evidente que sim. Tanto pior seria a situação geral caso não tivessem ocorrido, por definição.

Ainda assim, as esquerdas imaginaram-se tendo uma força cultural acima da realidade, em cada um destes momentos. Pautando-se sempre pelo movimento adversário, ofereceu resistência frontal em todos os casos, sem recorrer a quaisquer mediações de discurso, articulou-se muito pouco e – principalmente – tratou como tema secundário o problema principal: do antártico isolamento político a que foi submetida no jogo de forças político-culturais. Em perspectiva é razoável dizer que, dadas as circunstâncias, essas resistências tiveram resultado surpreende e, até mesmo, heróico. Depois de tantos sucessivos ataques de eliminação, é realmente impressionante o tamanho social que as esquerdas ainda têm e a resiliência que demonstram. Persistem como contraponto teimoso e necessário a uma nova ordem que se anuncia. 

No caso da ascensão da extrema direita brasileira, levará ainda tempo para que todas a dimensões do fenômeno estejam realmente claras. Além disso, será a soma das inteligências e experiências coletivas dos partidos, movimentos populares e quadros da esquerda que conseguirá, de forma dedicada, montar o difuso quebra-cabeças. Nesta época de intensa produção intelectual interativa, que é subproduto metodológico do nosso tempo digital, isto é ainda mais verdadeiro. Ainda assim, quanto mais produzirmos criticamente e escrevermos sobre o assunto, mais velozmente construiremos consensos urgentes. São estas as notas inciais necessárias para dividir algumas percepções.

Uma auto-crítica seguidamente não assimilada: a frente ampla.

*Artigo publicado no Brasil 247 em 4 de dezembro de 2018.

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